terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Um Debate Marxista Sobre o Syriza e o Podemos


Publico abaixo, com a devida autorização, o comentário do meu xaráHenrique Carneiro sobre o Syriza e o Podemos da Espanha, junto com minha resposta crítica. Aos interessados, peço que leiam até o final. Creio que, apesar do desacordo de conteúdo entre nós, a discussão começa a entrar em um terreno mais produtivo do que aquele dos primeiros momentos da vitória de Syriza, pois passa a tocar realmente a estratégia e a tática dos marxistas na Europa. Para não alterar em nada meu comentário, esclareço aqui que "CR" quer dizer "Corriente Roja", a seção da LIT na Espanha. Ao debate, então! *
HENRIQUE CARNEIRO**:
"Sobre a política em relação à Syriza e Podemos.
Durante décadas, Trotsky e os trotskistas buscaram estimular e participar de movimentos políticos que expressavam a resistência objetiva da classe trabalhadora.
Se defendia estar junto com o movimento político das massas quando encontravam um ponto de aglutinação contra os partidos da direita, ou seja, do grande capital, e seus governos.
Assim se defendeu até mesmo o entrismo, ou seja, se um movimento de massas não permitia a participação dos trotskistas, se entrava nele secretamente.
Moreno chegou a ter sua organização militando sob o peronismo!
Desde 1953, Palabra Obrera acatou a disciplina do peronismo, inclusive no voto em Frondizi em 1958.
No Brasil, desde o período formador do PT, em 1978/79, se discutia se a direção sindical emergente seria traidora ou não, se iria se adaptar, capitular, conciliar e ceder à burguesia ou se poderia manter-se independente.
Nesse momento, os lambertistas se fixaram em atacar sistematicamente a Lula e ao PT, como traidores pró-burgueses e pelegos.
Sensatamente, as demais correntes trotskistas defenderam e entraram no PT para desde dentro definir a sua evolução.
Ironicamente, a que foi mais sectária no começo, virou a mais adesista depois, a chamada Libelu "sonrisal", que se dissolveu e foi digestiva, que a fração de Favre conduziu ao vergonhoso papel de terem se tornado alguns dos escudeiros mais integrados da conversão da burocracia lulista em parceria orgânica com a burguesia. O consultor Palocci é o símbolo maior.
Dentro do PT, as coisas se definiram historicamente ao longo de uma década e meia.
Hoje, o Syriza na Grécia e o Podemos na Espanha, são fenômenos distintos, mas excepcionais no que representam uma retomada do referencial político da classe trabalhadora européia, numa esquerda situada no que se chama na Europa de "esquerda da esquerda".
É a primeira vez na história que esse tipo de formação política chega ao poder.
Não se trata da chegada ao poder de uma social-democracia. A diferença deles com os "socialistas" social-liberais, de Papandreou pai e filho, de Mitterrand/Hollande a Felipe González/Zapatero é muito clara no eleitorado destes países, com uma tradição muito mais politizada do que na América Latina. Da mesma forma, a ameaça fascista crescendo à direita e ameaçando ganhar na França tem um significado também muito claro, por mais que hoje tentem se camuflar.
A política sectária de fazer agitação de uma análise que caracteriza que as direções desses partidos vão trair inevitavelmente e buscar uma via de acomodação com a ditadura financeira da Troika é errada, em primeiro lugar, porque isso não está dado que aconteça, pois depende da própria disposição ou capacidade da Troika em ceder. Em segundo lugar, o que é pior, porque ter isso como eixo é afastar-se dos processos objetivos de reorganização política e continuar na marginalidade inexpressiva absoluta que, ao invés de alegrar-se, parece estar de luto porque surgiu uma nova alternativa política de massas de esquerda na Europa.
É preciso uma campanha internacional para apoiar a Grécia contra a Troika e para apoiar a vitória eleitoral de Podemos nas próximas eleições.
Todas as críticas a inúmeros aspectos, que vão das estruturas questionáveis de funcionamento interno ao programa, devem ser feitas, mas do ponto de vista fraterno de acompanhar a experiência junto ao imenso entusiasmo que esses novos fenômenos estão provocando."

HENRIQUE CANARY:
"Meu xará, Henrique Carneiro. Interessante sua análise. Eu acho, no entanto, que ela mistura duas questões distintas. Uma coisa é a tática de construção de uma pequena organização em um país onde existe um fenômeno do tipo Podemos ou Syriza. Neste caso, claro, é perfeitamente aceitável, do ponto de vista da tática, o ingressar nessa organização reformista ou burocrática e se construir por dentro dela. Como você bem lembra, Trotski o fez com os PS's, Moreno com o peronismo, a CS fez com o PT etc. No caso do Podemos, por exemplo, já não foi possível, como expliquei num post anterior (exigiram nossa dissolução completa). Mas em qualquer caso, o ingresso nessas organizações não se dava porque eram organizações progressivas. O PT, por exemplo, era uma expressão objetiva da luta da classe trabalhadora, uma organização classista e muito progressiva. Já os PS's dos anos 30 não eram. Eram organizações regressivas, reformistas até a medula. Trotski sempre o frizava. E mesmo assim ele aconselhou o entrismo pelo simples fato de que os PS's aglutinavam uma juventude rebelde aberta às ideias do socialismo e hostil ao stalinismo. (Veja que estou abrindo um leque ainda maior que o seu em termos de tática de construção! Estou dizendo que pode-se ingressar em organizações regressivas!) Então, ingressar ou não, claro, é tático. Você está certíssimo. O que não é tático é o que se diz para as pessoas. Deve-se dizer sempre a verdade. Eu não diria que a política da LIT é agitar a caracterização de uma futura traição do Syriza ou Podemos. Essa pode ser a sua impressão da política da LIT. Mas não é a política da LIT. Na Grécia a política da LIT foi chamar o voto no Syriza e denunciar o KKE por não fazê-lo. E isso desde 2012. Hoje nossa política na Grécia é chamar o Syriza a romper com a Troika e denunciar cada passo que se afasta dessa direção, ao mesmo tempo que chamamos os trabalhadores a confiar unicamente em sua própria mobilização. Essa política não deveria causar tanto espanto vinda de uma organização que luta há 60 anos para que a classe trabalhadora supere suas ilusões nas direções reformistas e tome em suas próprias mãos o leme de seu destino. Na Espanha, não posso prever se os companheiros chamarão ou não o voto em Podemos.
Como você sabe, a LIT não impõe políticas nacionais às suas seções. Se tivesse que especular, no entanto, especularia de que chamaremos o voto. Mas não sei isso com certeza. O que sei com certeza é que com o início da campanha eleitoral na Espanha, começou com força a discussão de programa. É o que CR está fazendo com Podemos: discutindo os méritos e os limites de seu programa. O que há de sectário nisso? O que CR deveria fazer? Aderir incondicionalmente e abrir mão de qualquer discussão de fundo justamente quando a realidade coloca essa discussão? Não nos parece razoável como política revolucionária. Algumas pessoas podem achar que CR está à margem de qualquer processo real na Espanha e que não conseguimos dialogar com ninguém porque não somos parte de Podemos. Eu entendo que as pessoas pensem isso. Mas essas pessoas estão mal informadas. A última edição de "Pagina Roja", jornal de CR, é totalmente dedicada à polêmica programática com Podemos. O que aconteceu? As pessoas rasgaram nossos jornais ao lerem nossas opiniões? Nos cuspiram na cara quando criticamos Podemos? Não. Na verdade, nós simplesmente vendemos o triplo de jornais habituais porque as pessoas queriam conhecer uma crítica pela esquerda à organização que elas confiam. E estão todos felizes em CR, com muitos amigos e gente para conversar. Poderíamos chamar isso de uma política de diálogo com a base de Podemos? Em minha opinião, sim. Se eu tivesse que definir a política da LIT em geral, diria que se resume em acompanhar a experiência das massas com essas organizações, mas fazer também, junto com isso, a diferenciação programática e denunciar suas vacilações. Continuamos trotskistas. Apenas isso."

*Henrique Carnary - Historiador e Militante do PSTU
** Henrique Carneiro- Intelectual, ex-militante do PSTU, ex-presidente da UPES (União dos Estudantes de São Paulo) a qual mantemos uma grande admiração, mesmo não estando em nossas fileiras, hoje, o consideramos como um militante revolucionário que tem uma vida de dedicação à causa da classe operaria inquestionável.


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